sábado, 5 de novembro de 2011

Nasci ao embalar do mar


Nasci ao embalar do mar, na ilha feminina, majestosa , deusa da bruma.

Na ilha andei nos  trigais de pés descalços, corri ao lado do vento, brinquei com a agua da chuva, fiz bonecos da terra molhada , caminhei nas grutas, rolei nos montes, contei estrelas, enamorei-me da lua e aquecia-me ao sol.

Obsorvi das  mulheres de xailes negros, de lenços e de cabelos ao vento, histórias de mistérios e sonhos de viagens.

Fazia-se o dia das amigas, era os piqueniques, as brincadeiras, risos e as confidências, brinquei nos cheiros da lenha, do pão quente .da maresia e da terra molhada, nos sons  das ondas na rochas das gaivotas e do cantar do galos

No  silêncio da noite, ao som dos grilos na minha mente aparecia frases e escrevia poemas . e desenhava rostos femininos com lápis de cor.

Na ilha aprendi a amar , chorar, sofrer, a sentir solidão, a diferencia, e a inquietação.

Deixei a ilha mas ela veio comigo, está no meu coraçaõ , nas minhas memórias mais profundas, na minha história.

No caminho da minha imaginação  de mistérios , da procura e entre saudade e nostalgias,

As minhas memorias submergem na consciência e sai para a tela emoções, afectos e pensamentos. Um quadro é o meu refúgio , meu lugar mágico para onde vou inteira, um espaço para a manifestação do meu universo sagrado e das minhas inquietudes, pintar para mim  é uma necessidade muito mais profunda do que um mero desejo de pintar para o reconhecimento   é reparar algo que se perdeu e que trouxe á tona angustias e dúvidas, antecipar mudanças e  mostrar

aquilo que não se quer ver, é crescer como pessoa e estar em harmonia com a natureza,.Pretendo com a minha pintura despertar emoções e uma partilha de cumplicidades e afinidades, onde a luz se transfiguram nas deusas dentro de cada mulher que se vai descobrindo , onde a minha mensagem com a cor  e forma é o de   querer emergir o feminino na mulher e no homem  e o  de união da humanidade

As mulheres dos meu quadros  encarnam  o arquétipo feminino  da  Grande Mãe, o Eterno Feminino de Deus,  e reverenciam os princípios  femininos , homem/mulher , são ainda as mulheres que temos no nosso coração  e na nossa vida, a mãe , irmã , amiga , filha, neta, mulheres solidárias, sábias, poetisas, artistas, heroínas, lilists, evas,  feias, bonitas, gordas, magras , jovens, idosas ,mulheres de temperamento arrebatado, propensas a sonhos e a tristezas inexplicáveis , sacerdotisas, xamãs, terapeutas … são as Mulheres Terra-Mãe



                           Lena Gal

terça-feira, 18 de outubro de 2011

MULHERES DAS BRUMAS- Mariana Inverno




Nas brumas, elas são as formas quase indiferenciadas do ar. Movem-se como murmúrios, estátuas móveis emergentes da terra pulsante. A sua dança, ilusoriamente remota na densidade das névoas, combina o ar, a água e o fogo. Tudo na distância, como um apontamento poético a preceder a revelação que parecemos aguardar.

Acontece tudo e tudo se move entre elas e a terra. Enraizadas no solo estremecente, escalam montanhas de dor e cantam a vida que no seu ventre pulula. Calam a alma em choro com as flores do caminho, o cheiro do ar, a pele do filho ainda só seu, a oração apaziguante.

Tudo são prelúdios. Há coisas no ar, pressentimentos, passos que se adivinham. Prenúncios de uma manifestação por vir, o ventre a abrir-se, o choro das águas.

Nas mulheres que a névoa deixa adivinhar viajam impressões antigas como as rochas, segredos milenares, laivos de sonho, cantatas de sangue e mágoas, destruição e vida, gestos de amor na aurora a despontar.

Vão e vêm, nas brumas. Mãe, filha, filha, mãe, na tecelagem do eterno recomeço. Bordadas na aragem azulada pela mão da Deusa, caminham na aridez como um sopro divino, uma nota maior, concordantes com a terra e o mar, aspirantes aos céus, mulheres de asa entreaberta, mulheres prestes, tão prestes, a voar…

MARIANA INVERNO

Fundadora do PROJECTO Art for All

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Maria do Céu Brito escreve sobre Lena Gal


alcançar a compreensão do todo é necessário intuir o que se é, o que se não é e o que se deseja  ser.  Para se chegar ao que se é, percorrem-se mil  vias de silêncio, de cuidados, de alegrias e tormentos, de amor e desalento, de sonho, pesadelo, de cansaço, de insónia e criação.
Lena Gal  é uma mulher.  Intui-se, inteira, no seu ser feminino. Debruçada sobre a ilha, que respira desde a infância, deixa-se percorrer pelas sensações cromáticas dos ventos, do basalto, das cantigas das meninas nas eiras, ao entardecer, quando o crepúsculo tinge de azul o horizonte e os cabelos das mulheres que pinta.
A pintura de Lena Gal reflecte essa vibração líquida das águas, das neblinas, das maresias; uma vibração amena que se estende pelo corpo feminino, pelo ondular dos cabelos índigo, azuis cobalto e se estende pelas mãos, serenas e longas, abandonadas sobre o corpo.
Contrai-se, às vezes, a expressão corporal. Outras vezes o corpo da mulher é abundância; pernas abertas em abandono; raízes, troncos descuidados : autênticos poemas de carne, de pólen, de algas - uma sensualidade  que atordoa, que inquieta, que deslumbra,
Lena Gal  é uma mulher da ilha. O mar, o substrato líquido onde o corpo e a memória mergulham, inteiros. O fogo, a matéria ardente que escorre, em rios ocultos, nos vestidos da mulher de pernas densas, carnais, férteis searas de luz.
Lena Gal pinta no feminino: mulheres marinhas, aves incandescentes, poemas de carne com cabeças que voam nos intervalos do mar; pernas, pés, corpos disformes que antecedem  a compreensão do todo, mas o intuem em expressões e cromatismos de uma imensa beleza.
A pintura de Lena Gal deixou em mim, no que julgo ser, enquanto mulher, uma réstia de luz.
E a esperança breve, de ver a mulher das ilhas abandonar o cais onde permanece, há séculos, aquém de si mesma. 
É tempo de iniciar a viagem!
Horta, 15 de Fevereiro de 2009
 Maria do Céu brito
A Vereadora da Cultura  da Câmara Municipal da Horta Açores-------------------------------







domingo, 9 de outubro de 2011

Corpos da Terra levados para o espaço do sonho






A substância  cromática ganha, na pintura de Lena Gal, uma forma de dialogo intimista

que se propaga lentamente, sem pressa de alcançar o cimo da montanha. Escolhe-se um caminho sereno, meditado, de modo atingir o cume de mãos dadas aos fragmentos que possibilitam a descoberta de uma unidade contida mas libertadora…

Os espaços são tocados por castanhos azuis e brancos intensos, a terra-raiz  e o sonho errante, espiral desejada. O elemento feminino, que tem sido constante na pintura de Lena Gal mantém uma forte relação  telúrica a que não será estranho . O berço açoriano da pintora ( S. Miguel) porem as contemplações e buscas interligam-se já num plano menos fechado, adensando-se o psicológico na expressão do corpo sensual. É neste trajecto que artista faz a síntese de múltiplos olhares e do seu próprio olhar.





                                              Maria Augusta Silva

                                  Diário de Noticias – 30 de Março / 2003





Silêncios femininos desafiam o entendimento humano



Os corpos, os rostos das personagens que habitam a pintura  de Lena Gal não são figuras de mero estilo. Há nelas não apenas a circunstância do espaço e da forma e a relação da pintora com o imaginário , mas , sobretudo , são mulheres que na complexidade das emoções  , numa intima sensualidade , ganham um admirável expressivismo . Lena Gal não busca só o efeito pictórico , vai mais fundo ao explorar todas as possibilidades estruturais das suas obras.  Fá-lo de um modo inteligente e sensível . E nascem-lhe. então  , silêncios femininos que se desnudam como um chamamento e um desafio ao entendimento humano….Entre castanhos e brancos, entre azuis e vermelhos que emergem como veias e sons da terra , as mulheres dos quadros de Lena Gal assumem-se , no estético e na comunicação emocional , como intérpretes de perfis sociológicos numa escala que, no entanto , pondera a oficina da  pintora nunca reduzida a uma representação do “real visto” ou a exercícios analógicos . Lena Gal não subestima a transfiguração ,  sem deixar , porém, de defender uma mensagem( a sua mensagem sobre o perceber” a importância do feminino”) .

      

                                               Maria Augusta Silva

                                     Diário de Noticias 8 de Outubro de 2005




Uma ilha na ilha

ano 2010
116x89

Desenho a carvão

domingo, 25 de setembro de 2011

O feminino insular

feminino insular Letícia Möller


quero ser como as mulheres de Lena Gal
tantas mulheres dentro de mim.

deusas camponesas
delicadas mães amigas
sensíveis bordadeiras sensitivas
irmãs cúmplices conselheiras
sonhadoras misteriosas filhas.

sábias dançarinas
a correr com o vento.

mulheres ninfas, mulheres fofas
mulheres jovens e maduras
mulheres fadas, mulheres bruxas
mulheres diversas mas tão iguais
mulheres todas...

ah, quero ser como as mulheres de Lena
na terra da brisa perfumada!

suspiros de concha
pegadas na areia
os risos alíseos
um céu de pensamentos
num olhar infinito.

devaneios de ilha.

o feminino insular
não hermético
desconfiado
isolado
não.

feminino afetivo
comunicante, íntimo
que ao acolher
permite silêncios
respeita espaços e tempos.

feminino
que preserva os mistérios
as paixões singulares
não perturba as saudades
as inquietações da alma.

quero ser feminino insular
como as mulheres de Lena…

este espaço pretende dar a conhecer a artista plástica Lena Gal