terça-feira, 18 de outubro de 2011

MULHERES DAS BRUMAS- Mariana Inverno




Nas brumas, elas são as formas quase indiferenciadas do ar. Movem-se como murmúrios, estátuas móveis emergentes da terra pulsante. A sua dança, ilusoriamente remota na densidade das névoas, combina o ar, a água e o fogo. Tudo na distância, como um apontamento poético a preceder a revelação que parecemos aguardar.

Acontece tudo e tudo se move entre elas e a terra. Enraizadas no solo estremecente, escalam montanhas de dor e cantam a vida que no seu ventre pulula. Calam a alma em choro com as flores do caminho, o cheiro do ar, a pele do filho ainda só seu, a oração apaziguante.

Tudo são prelúdios. Há coisas no ar, pressentimentos, passos que se adivinham. Prenúncios de uma manifestação por vir, o ventre a abrir-se, o choro das águas.

Nas mulheres que a névoa deixa adivinhar viajam impressões antigas como as rochas, segredos milenares, laivos de sonho, cantatas de sangue e mágoas, destruição e vida, gestos de amor na aurora a despontar.

Vão e vêm, nas brumas. Mãe, filha, filha, mãe, na tecelagem do eterno recomeço. Bordadas na aragem azulada pela mão da Deusa, caminham na aridez como um sopro divino, uma nota maior, concordantes com a terra e o mar, aspirantes aos céus, mulheres de asa entreaberta, mulheres prestes, tão prestes, a voar…

MARIANA INVERNO

Fundadora do PROJECTO Art for All

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