Nas
brumas, elas são as formas quase indiferenciadas do ar. Movem-se como
murmúrios, estátuas móveis emergentes da terra pulsante. A sua dança,
ilusoriamente remota na densidade das névoas, combina o ar, a água e o fogo.
Tudo na distância, como um apontamento poético a preceder a revelação que
parecemos aguardar.
Acontece
tudo e tudo se move entre elas e a terra. Enraizadas no solo estremecente,
escalam montanhas de dor e cantam a vida que no seu ventre pulula. Calam a alma
em choro com as flores do caminho, o cheiro do ar, a pele do filho ainda só
seu, a oração apaziguante.
Tudo são
prelúdios. Há coisas no ar, pressentimentos, passos que se adivinham.
Prenúncios de uma manifestação por vir, o ventre a abrir-se, o choro das águas.
Nas mulheres
que a névoa deixa adivinhar viajam impressões antigas como as rochas, segredos
milenares, laivos de sonho, cantatas de sangue e mágoas, destruição e vida,
gestos de amor na aurora a despontar.
Vão e
vêm, nas brumas. Mãe, filha, filha, mãe, na tecelagem do eterno recomeço.
Bordadas na aragem azulada pela mão da Deusa, caminham na aridez como um sopro
divino, uma nota maior, concordantes com a terra e o mar, aspirantes aos céus,
mulheres de asa entreaberta, mulheres prestes, tão prestes, a voar…
MARIANA INVERNO
Fundadora do PROJECTO Art for All

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